2001

Novembro
"Interactio - Interação para Aquisição de Línguas Estrangeiras"
Palestra apresentada pela Prof. Maria Lúcia Mercante Naddeo no Espaço Cultural da TV Câmara em Brasília e apresentada em cadeia nacional > leia abaixo o artigo

Paradigmas e Educação
Profª. Maria Lúcia Mercante Naddeo

Ao longo da história, a ciência tem trabalhado com diferentes paradigmas: (modelos que sustentam diferentes áreas da ciência durante um período de tempo). Thomas Kuhn, em seu livro "A estrutura das revoluções científicas" acreditava que, quando um paradigma não fosse mais suficiente para explicar determinados fenômenos, haveria uma ruptura, uma revolução científica, sempre precedida de um período de declínio e desestruturação do paradigma até então vigente.

Vivemos atualmente um desses períodos e uma mudança de paradigma já é sentida como necessária em todas as áreas nas quais atuamos. O determinismo e o racionalismo, bem como a objetividade de Déscartes fazem com que nossa vida seja como uma colcha de retalhos, na qual diferentes pedacinhos de tecido são colocados um junto ao outro, sem que haja uma grande harmonia entre eles. Dessa forma, vivemos no paradigma cartesiano.

Fragmentos de vida, de experiências e de vivências. Ao analisarmos nosso cotidiano, é fácil constatarmos que estamos dentro de um mundo extremamente fragmentado, e que muitas vezes as coisas não parecem ter sentido.

Nós mesmos quando nos olhamos no espelho ou quando, em situações inesperadas, precisamos da ajuda de um médico, acabamos por constatar que somos uma "colcha de retalhos", um conjunto de partes fragmentadas que não compõem um "todo" harmônico... e assim, precisamos de ajuda de especialistas, peritos em parte específicas do nosso corpo, que têm dificuldade de encontrar o ponto de desarmonia no nosso organismo...

Numa mudança de paradigma, o caos é necessário para que haja reestruturação do pensamento vigente. Dessa forma, a homeopatia representa a medicina holística, uma prática de análise e reflexão sobre o ser integral e uno que somos. Uma mesma essência, uma energia vital que pode se apresentar "doente" em determinados pontos, mas que é uma em sua origem.

E na educação, com a implementação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), essa discussão passou a fazer parte do nosso dia-a-dia. Não queremos e não podemos mais viver numa escola fragmentada, que faz do conhecimento uma colcha de retalhos. É preciso que as experiências de vida dos alunos e professores sirvam como base para a aquisição de conteúdos relevantes e contextualizados na sala de aula.

Nós, professores, acostumados a trabalhar com disciplinas isoladas, agora estamos aprendendo a trabalhar de maneira interdisciplinar, com temas transversais, que retratam o nosso cotidiano. E, nessa prática, o uso do jornal se solidificou como instrumento extremamente importante, pois nos fornece informações atualizadas diariamente, que representam a base para a construção de um conhecimento autêntico.

Neste momento de reflexão, proponho que todos nós, educadores, conscientes do papel que desempenhamos na sociedade, ousemos criar novas formas de trabalho dentro da escola. O jornal é um importante aliado e deve ser usado como elemento de integração entre a sala de aula e a comunidade, seja ela local, nacional ou internacional.

Extrair o conhecimento real do nosso cotidiano pode parecer desafio, mas na verdade é a única garantia que temos para que possamos realizar, em educação, uma mudança de paradigma coerente e que seja o início de um processo de vida mais harmônico e feliz para todos os alunos e professores.

Artigo publicado pelo jornal Correio Popular, em Campinas, São Paulo, 04 de dezembro de 2000

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